quarta-feira, abril 29, 2009

i see danger in the eyes of a stranger (só Ferreira Leite me percebe)

Estamos em tempo de indagações metafísicas. É o terrorismo, Obama, a crise, a prática de tortura, piratas, eleições, Manuela Ferreira Leite. É um estado de ansiedade permanente. Por vezes, parece que essa ansiedade perene é interrompida. Que da maior das trevas, como do mais cinzento dos céus, pode irromper um raio de luz que anima e que nos permite continuar mais um pouco. No entanto, por tantas outras vezes, esse raio mais não é que um simulacro de uma verdadeira libertação, uma ténue representação de um ânimo vindouro que não virá. A miragem do oásis no deserto. Hoje, há três horas, esse simulacro dava-se pelo nome de Anni Rossi. Encontrei essa pequena senhora de Chicago, com ar de aldeã citadina (hei-de explicar o que é isto), aqui, passei a manhã a ouvir, e por instantes senti-me livre de desânimo. Senti-me assente numa coerência metafísica. Não passou de um devaneio fundacional (herdeiro da condição moderna), constato agora. A falsidade da imagem ataca quando menos se espera (o mundo espectral é o conforto máximo) e à menor provocação. Isto porque Anni Rossi fez um cover dos Ace of Base. Desconforto total, dúvida, receio voltam a assombrar-me. Questões essenciais que se julgam esquecidas voltam com renovada premência. Qual a melhor música dos Ace of Base? The Sign? Don't Turn Around? All That She Wants? Que angústia.

terça-feira, abril 28, 2009

nem o inimigo público me faz rir tanto

"Salvador, de 20 anos, estudante de Gestão na Universidade Católica Portuguesa (UCP), admite que pouco mais sabe acerca do Condestável do que o facto de ele se ajoelhar antes de cada batalha. E de ter entregue 'tudo' para se dedicar a Deus. Lopo, de 20 anos, estuda Agronomia e aprecia que, mesmo como guerreiro, D. Nuno Álvares Pereira tenha sempre procurado 'encontrar Jesus'. E Martim, de 22, aluno de Direito na UCP, orgulha-se do novo santo português que amanhã será canonizado pelo Papa Bento XVI: 'Um exemplo de vida'."

in Público, 25 de Abril de 2009.

Faz-me lembrar a história de uma vizinha de uns amigos meus que, depois de chamar aos três filhos Bruno, Marco e Pedro, chamou ao retriever Salvador.

quinta-feira, abril 23, 2009

tortura 2

Eu, que não sou nada de obrigar as pessoas a fazer coisas, aconselho vivamente a leitura deste artigo de Gary Kamiya sobre tortura. Arriscando parecer o Ricardo Araújo Pereira a imitar Marcelo Rebelo de Sousa, o argumento certo (isto da lógica dos argumentos é uma tremenda chatice) é algo do género: A tortura resulta? Sim. Existem situações de onde podemos extraír princípios éticos que legitimem a tortura? Sim. Verificam-se na realidade? Não. Devemos torturar? Não. Excertos:

"So the easy argument against torture, that it is ineffective, is wrong. Torture can work. Nor can one simply dismiss the philosophical "ticking bomb" debate. Even ethicists bitterly opposed to torture acknowledge that if that hypothetical situation -- endlessly depicted in Fox's TV show "24" -- actually existed, there would be a compelling moral and philosophical argument for torture in that instance. But in the real world, the "ticking bomb" situation never arises."

"Torture is not morally justifiable. In addition, it has severe negative consequences. Once a nation embraces torture, it forfeits any claim to a moral high ground. It becomes no better than those it is fighting. It may win a
battle, but it will lose the war."

"The Chilean writer and human rights activist Ariel Dorfman wrote, "Torture is, of course, a crime committed against a body. It is also a crime committed against the imagination. Or rather, it presupposes, it requires, it craves the abrogation of our capacity to imagine others' suffering, dehumanizing them so much that their pain is not our pain." Torture shatters the lives of those subjected to it, Dorfman writes. It corrupts not only the torturer, but all of society. "Torture obliges us to be deaf and blind and mute." (o bold é meu
)

tortura

Obama divulgou uma série de memorandos da época Bush sobre tortura, práctica também conhecida, em newspeak, por métodos de interrogação coercivos. Quando estas coisas acontecem, surge sempre alguém que atesta a utilidade dos métodos. A discussão em torno do hipotético ticking bomb scenario (um terrorista tem informação vital que pode impedir um atentado que vai acontecer num futuro próximo) parece quase tão inconsequente quanto a utilização de estados-natureza Hobbesianos como analogia da (aparente) imutabilidade da natureza humana. Contudo, estas situações 'hipotéticas' constituem importantes veículos de legitimação de prácticas que colidem com algumas das fundações mais elementares da nossa existência comunal.

Não concordando normal
mente com as ideias políticas de Zizek, tenho a dizer que a sua reflexão sobre tortura paira pela minha cabeça sempre que o tema vem à tona. Em entrevista a António Guerreiro para o suplemento Actual, dizia Zizek que discutir a práctica de tortura era um bocadinho como a sociedade questionar se haveria algum problema em violar mulheres. Obviamente que Zizek não é ninguém para dizer o que se deve discutir ou não. No entanto, acho que aqui ele tem toda a razão.

quarta-feira, abril 22, 2009

so what

Miles Davis e John Coltrane, senhoras. Aos dois minutos e vinte e oito podemos ver Miles Davis a fumar um cigarrinho enquanto Coltrane toca. O Jazz nunca fez mal a ninguém.

terça-feira, abril 21, 2009

da funk


Pode-se comprar estas bonitas miniaturas dos Daft Punk por trezentos e vinte euros (cento e sessenta euros cada um), aqui. Adorava ser os Daft Punk. Os dois ao mesmo tempo. Sou muito a favor da pesquisa genética.

marketing 101

Acho alguma piada ao cartaz da Dra. Manuela Ferreira Leite. Não acho que gostar do cartaz seja um sinal de maturidade democrática, mas não é feio de todo. Não sei que corrente artística será aquele retrato (realismo? impressionismo? expressionismo?), mas gosto. É pouco laranja, a cor de fundo parece verde (mas ninguém sabe ao certo) e vai bem com o tom de pele de Ferreira Leite. Agora, colocar um cartaz de Ferreira Leite ao lado de um outro de Helena Coelho é capaz de não ser uma grande ideia.

domingo, abril 19, 2009

os três duques é o filme adequado para ler textos sobre a crise

"It is difficult to get a man to understand something when his job depends on not understanding it."

Upton Sinclair, não sei bem onde, citado num artigo de Nitasha Kaul, cujo apelativo título é The Economics of Turning People into Things, disponível aqui, e que começa logo de mansinho com a seguinte frase: "economics does violence when it forgets that social science must also be moral".

quinta-feira, abril 16, 2009

Being João Gonçalves

Há coisa de um mês escrevi um mini-ensaio sobre a metamorfose do Kafka. Um dia hei-de pô-lo aqui. No entanto, o que eu queria partilhar mesmo convosco tem que ver com o maravilhoso passeio que o deputado Carlos Coelho organizou. Para quem não sabe, Carlos Coelho é um deputado europeu que decidiu convidar uma série de malta que escreve em blogues para ir a Bruxelas ver o sítio onde ele trabalha. É giro isso acontecer porque eu próprio já fui ao Parlamento Europeu a convite do Dr. Carlos Coelho (a Estrasburgo, no entanto) naquela que foi provavelmente a viagem mais dolorosa da minha vida (ainda assim, bem menos violenta que a leitura de um texto do Cadilhe). Não me lembro bem em que ano foi. Há quatro anos talvez, dado que ainda estava na universidade.

A coisa processou-se mais ou menos assim. Um dia um professor disse que quatro de nós podíamos ganhar uma viagem ao Parlamento Europeu em Estrasburgo, via Paris. Fez-se um concurso na turma e eu fui um dos vencedores. O estabelecido era que a viagem custaria oitenta ou noventa euros, preço que incluía voos de ida e volta Lisboa-Paris-Estrasburgo, duas noites de hostel em Paris e uma em Estrasburgo. Parecia um negócio difícil de recusar.

Na altura, este pobre ingénuo que vos escreve, ainda tinha uma réstia de esperança na competência dos políticos que nos servem, nem que fosse para contratar uma agência de viagens. Eu gosto muito de biografias. Nas biografias há sempre aquele momento definidor sem o qual não se percebe toda a cosmovisão do biografado. Se alguém alguma vez escrever a minha biografia, e houver um capítulo sobre política, tenho-vos a dizer que esse evento foi aquele que marcou o fim do meu idealismo púbere.

Lá chegou então o dia de embarcar. Encontrámo-nos no aeroporto, apanhámos o avião e seguimos para Paris. Chegados a Paris, ninguém sabia onde era o hotel e não estava ninguém à nossa espera. Não havia um líder estabelecido, não se percebia quem mandava, a maior parte (eu incluído) não sabia onde terminava o ‘grupo’. Por sorte, como ia ter com uns primos, acabei por apanhar o RER e safei-me daquele problema. Cheguei a Paris pela tarde e ainda dei umas voltas simpáticas pela cidade.

No dia seguinte, contudo, tínhamos que ir para Estrasburgo. Lá fomos nós de novo até ao Charles de Gaulle. Chegámos a Estrasburgo à noite e, surpresa, ninguém fazia qualquer ideia de onde ficava o hostel. Lá foi outra vez aquela amálgama de pessoas à procura do local onde deveríamos pernoitar. Lembro-me de andar uns quilómetros até chegar ao local, depois de um autocarro nos ter abandonado numa rotunda, nos arredores da cidade (Estrasburgo não é assim tão grande, não foi dramático).

No dia seguinte, acordámos e fomos para o Parlamento. Chegámos, demos lá uma volta, pouca gente no hemiciclo como seria de esperar, tivemos uma conversa com João de Deus Pinheiro e já era tempo de almoçar (avisaram-nos logo que não havia muito tempo porque ainda voltávamos para Paris nesse dia e à tarde ainda tínhamos de ver algo).

Lá tivemos todos que ir apanhar um autocarro público. Por sorte, descobrimos uns seres humanos que lá andavam que também iam almoçar. Metemo-nos no autocarro deles. Depois de dois dedos de conversa percebemos que eram a ‘constituency’ de Carlos Coelho (há aqui algo que não bate certo porque, nas eleições europeias, Portugal não tem círculos eleitorais, mas como Carlos Coelho foi por duas vezes eleito para o Parlamento Português pelo Círculo eleitoral e Santarém e como me lembro que uma pessoa me disse que era de Mação, que faz parte do distrito de Santarém, eram capazes de lá estar por isso, não sei). Tinham ido para Estrasburgo de autocarro, desde Portugal. Simpático.

No curto caminho que distava entre o Parlamento Europeu e o restaurante (que era bom) aprendi uma das maiores lições de teoria das alianças eleitorais que aprenderei em toda a minha vida. Um simpático senhor, presidente de qualquer coisa numa terra qualquer, teve a gentileza de nos explicar (a mim e mais dois), abrindo-nos em simultâneo o apetite, como é que se garantia uma reeleição a troco de um vitelo (à direita) e de enchidos e lacto-derivados (à esquerda).

Antes do apressado almoço, houve tempo para um pequeno discurso de Carlos Coelho. Estava feliz por nos ter ali e tinha cumprido a promessa (cá está, eu lembro-me claramente disto, até porque um velho que estava na minha mesa fez questão de se rir alto quando ele disse aquilo) de levar aquelas gentes a ver ‘como a Europa funciona’, de autocarro.

O repasto foi bom. Voltámos para o Parlamento, andámos às voltas (recebi um passaporte da União com a minha fotografia – quando for ao Egipto vendo-o) e estava na altura de ir para o aeroporto. Infelizmente, para adocicar mais a coisa, o avião atrasou-se três horas por causa de nevoeiro.

Chegámos a Paris passava da meia-noite. Não havia RER, nem shuttle da Air France. Como estávamos cansados e não havia autocarros directos para onde íamos, fomos de táxi. Eu dividi o táxi com mais três pessoas e paguei vinte e cinco euros. Cheguei a casa dos meus primos às duas da manhã. No dia seguinte acordei, fui ao Trocadero (que era perto de casa), dei mais dois passos, entrei numa FNAC para comprar um disco do Curtis Mayfield para a minha prima (sou um primo impecável; ela tinha acabado de ter um desgosto amoroso) e apanhei o shuttle da Air France para o aeroporto (mais vinte e cinco euros).

Como podem ver, foi gira a viagem. Foi organizada exactamente pelas mesmas duas pessoas que organizaram esta. À chegada a Lisboa, o ‘solícito’ Duarte Marques ficou ofendido porque eu (e outros, mas eu sou bastante irascível) lhe disse que ele era um tremendo incompetente. Naturalmente, disse logo que não pagava nada daquilo (o preço tinha entretanto aumentado mais trinta ou quarenta euros), mas os meus pais chamaram-me à razão (‘afasta-te dessa gente, paga e desaparece que isso é tipo máfia de leste mas pior’). Dias depois, o supracitado ‘solícito’ apareceu na minha universidade para pedir desculpa pela viagem. Cruzámo-nos à saída da sala de aula, estendi-lhe a mão e ele não me cumprimentou. Entrei de novo dentro da sala, paguei o que devia e fui-me embora.

Só voltei a ver o ‘dinâmico’ Duarte Marques por duas ocasiões. Uma vez num bar, outra numa edição da revista Visão sobre ‘o Futuro da Política’. Com a competência demonstrada, de certeza que ainda o hei-de encontrar num cartaz qualquer ali para os lados do Marquês.

terça-feira, abril 14, 2009

Badiou



O Alain Badiou foi ao Hardtalk e ninguém me dizia nada? Ingratos. O Hardtalk é um programa absolutamente essencial e vai ser soberbo ver Badiou falar do 'evento' da crise como novo 'point de capiton' e da 'jouissance' dos movimentos socialistas que renascem um pouco por toda a parte. Vai ser ainda mais maravilhoso ver o Stephen Sackur a fazer perguntas lixadas e a mandar vir com o gajo. Eu fui a uma entrevista àquele novo jornal que se chama i (reduzir a uma letra o nome de um jornal não me inspira confiança; eu gosto de International Herald Tribune, New York Times, Le Figaro e do Jornal de Comércio da Associação de Feirantes de Vila do Conde. O i é um jornal que qualquer analfabeto vai conseguir comprar) e disse que, se tinha um modelo de jornalista, esse modelo era o Sackur. Eles riram-se.