terça-feira, setembro 02, 2008

KaffeHaus, Chiado

O Zenuno divulga no cinco dias um dos cafés mais simpáticos que abriu em Lisboa nos últimos tempos. Chama-se KaffeHaus e fica na Rua da Anchieta, ao Chiado, bem perto do Governo Civil de Lisboa. Trata-se de um típico café Vienense. Apenas quem já passou algum tempo em Viena pode saber o que é um café Vienense. Um café Vienense é um espaço escuro, tenha janelas ou não. É sombrio por natureza. Tem mil posters colados na paredes, uns por cima dos outros, dando à parede uma espessura que esta originalmente não tem. Os cafés em Viena têm também jornais - coisa que a KaffeHaus não descura, tendo uma boa colheita de jornais, revistas e programas culturais, tanto nacionais como estrangeiros. Nos cafés em Viena opta-se pelo café simples, pelo típico mélange ou pelo importado cappucino. Os sumos, normalmente misturados com àgua lisa ou gaseificada, são também habituais. Há ainda, claro, a doçaria. Desde a famosa torta Sacher, que hoje em dia se pode encontrar em quase todo o lado (mesmo a do supermercado Spar é bem boa) até à torta de Linz, passando pelo Mohr Im Hemd. A cerveja é também típica, tanto pelas onze da manhã para os locais mais locais, como ao fim da tarde para os turistas mais latinos, bem como para uma parte substancial da simpática população universitária vienense.
Há, no entanto, algo que a Kaffehaus não tem e que, em muito, lhe retira o toque típico do café Vienense. Na Viena do nosso Chiado, os empregados são gentis, sorridentes e simpáticos. Na Viena de Áustria, como dizem os mais velhos (eu não conheço mais nenhuma Viena, por isso apenas uso essa expressão de tanto em tanto), o típico empregado de café é abertamente carrancudo, mal-educado e teima em recusar dar o troco, a não ser que lhe peçamos expressamente - o que nem sempre è fácil para quem não fala a língua de (originalmente escrevi Musil, mas era só para dar um ar pretensioso à coisa dado que nunca li Musil e não vou fazer um panegírico ao João Barrento, embora goste muito da tradução dele do Homem Sem Qualidades, que, repito, nunca li. Ponham o nome de um qualquer autor escreva na língua alemã, até seis letras. Aceitam-se sugestões para o mail)_ _ _ _ _ _.
Mais a mais, para um filósofo amador como eu, um diletante de colheita tardia (o que é sinónimo de um tipo que diz estupidezes a um ritmo preocupante), os cafés Vienenses são famosos pela sua história e pelas disputas que neles se travaram, em finais do século XVIII, princípios do séculos XIX, entre alguns dos principais pensadores europeus. Não sei quanto a vós, mas a mim dá-me um certo prazer estar a beber uma Ottakringer de Viena ou uma Stiegl de Salzburgo, sob o mesmo tecto (trabalhado, cidades imperiais têm destas coisas) que abrigou Freud, Karl Renner, Nietzsche e onde se discutia o valor (hoje indiscutível) das obras de Schiele e Klimt. Isto claro, sempre acompanhado com um belo cigarro - penso ainda hoje permitido e encorajado pelo resto dos convivas.
No Chiado não se pode fumar, o que expropria o diletante tanto de um pouco da sua decadência como da sua elegância. No entanto, podem-se sentar sob o mesmo tecto que já me acolheu, o que, vistas as coisas, não é mau de todo.

*Segue aqui o link para o vídeo no cinco dias e no youtube.

segunda-feira, setembro 01, 2008

ondas, jóias, vaginas e bartleby

A meu ver (e depois de uma converseta telefónica com o Moita Flores), o momento fundador desta onda de criminalidade começou na sexta-feira passada, quando duas mulheres foram apanhadas com jóias no valor sete mil e setecentos euros enfiadas na vagina. Eu preferiria de não falar sobre este assunto.

sábado, agosto 16, 2008

Late of the Pier

"I saw them at fopp in nottingham. When the bit at 3:00 comes on i did a little hand thing but they didnt do it and i looked retarded! Sick."

terça-feira, agosto 12, 2008

Isaac Hayes

segunda-feira, agosto 11, 2008

JO


Meu soberbo ser humano, como eles dizem, com razão (e dar uma leitura à Carta Olímpica ajuda), declarar como um objectivo primordial dos Jogos "to place sport at the service of the harmonious development of man, with a view to promoting a peaceful society concerned with the preservation of human dignity" parece-me um objectivo bastante político.

ps. Abstenho-me de comentar a barbárie que é o ponto 4. Sem querer tirar-vos o prazer, aquilo começa assim: "the practice of sport is a human right".

domingo, julho 20, 2008

serviço público

Nitidamente o momento mais erótico de sempre da televisão portuguesa deu-se hoje, às sete e pouco da tarde. Os ingredientes eram: José Bento dos Santos, Marta Crawford, Trufas Negras, Trufas Brancas. O resto deixo à vossa imaginação.

quinta-feira, julho 10, 2008

Pó dos Livros (2)

A livraria Pó dos Livros é das boas livrarias que a grande alface tem para oferecer. Essa, a Buchholz e a Quadrante, esta última que já não frequento há uns tempos (é na Filipe Folque, perto do mítico restaurante 'A Colina' onde eu vi pela primeira vez na minha vida uma senhora a jantar sozinha porque o seu par não se dignou a aparecer e onde o meu avô, em 2006, naquilo a que se pode considerar uma réplica do sismo registado a 25 de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, ameaçou matar toda a gente que lhe tentasse expropriar o que lhe pertencia, nomeadamente membros do Bloco de Esquerda). O atendimento é cortez e solícito. A madeira das estantes é bonita, tem café e é muito perto dos jardins da Gulbenkian, onde penso um dia vir a escrever o meu magnum opus enquanto uma ninfeta me espalha manteiga de karité pelo corpo.

Pó dos Livros

segunda-feira, julho 07, 2008

para um amigo

"É uma característica das pessoas que primeiro são doidas e por fim qualificadas de dementes o facto de deitarem pela janela fora (da sua cabeça) cada vez mais e sempre de forma contínua a sua riqueza mental e simultaneamente na sua cabeça essa sua riqueza mental se multiplicar com a mesma velocidade com que elas a deitam pela janela fora (da sua cabeça). Elas deitam cada vez mais riqueza mental pela janela fora (da sua cabeça) e ela vai sendo, na sua cabeça, cada vez mais e tornando-se naturalmente cada vez mais ameaçadora e por fim já não é suficiente o deitar fora (da sua cabeça) a sua riqueza mental e a cabeça já não consegue aguentar a riqueza mental que nela se vai incessantemente multiplicando e acumulando, acabando por explodir".

Thomas Bernhard, O Sobrinho de Wittgenstein (trad. José A. Palma Caetano). Assírio e Alvim, 2000.

terça-feira, julho 01, 2008

flâneur

(o meu avô já não se lembra de mim). Cheguei e prestei visita. (a minha avó, com os olhos à altura dos dele, curvada por causa da cadeira de rodas, pede-lhe que me reconheça). Dá o programa da tarde na televisão. Coitados dos velhos que ficam em casa à tarde. Sair também não é fácil. Não há passeios para cadeiras de rodas e a calçada está cheia de buracos. E os buracos estão cheios de beatas. Porcos de merda. (jorge, quem é que está aqui? quem é ele? já não te lembras? é filho de quem?). Vou beber um café e um bronco grita para uma gaja "há-des cá vir, há-des cá vir". Pensei no acordo ortográfico; há-des dá um ar grego à coisa. (jorge, é filho da isinha. é o filipe. não se lembra diz-me ela. a voz treme-lhe por saber que provavelmente, um dia, nem dela se lembrará. ela que está fechada naquela casa há 10 anos). Três obesos pedem minis pretas e riem. A empregada fala com um deles. Tem um Maserati diz ela. É dinheiro do petróleo diz ele. (ela resigna-se. eu digo que ele está a fingir. põe os olhos na televisão. falam do ronaldo). O arco do cego é um jardim com um parque de estacionamento coberto ao lado. Filhos da puta. Puseram um parque de estacionamento coberto ali. Ao lado de um jardim. O jardim não tem nada. Há um drogado deitado a apanhar sol. (vai comer batatas fritas seu sortudo! ele gosta muito de batatas fritas. é o que ele mais gosta. dê-lhe todos os dias, digo. faz-lhe mal à saúde diz-me ela). Procuro um Remarque para esquecer. Só há a edição de bolso da Europa-América. Uma merda de edição. A página nem é centrada. A Oeste nada de novo.