sexta-feira, março 20, 2009

A Casta

Da contracapa:

"Che futuro ha un Paese dove un consigliere regionale abruzzese guadagna più del governatore della California? Dove il Quirinale costa il quadruplo di Buckingham Palace ma taglia il 3 per mille? Dove le spese dei Palazzi del potere continuano a crescere, il presidente della Camera fa il sub in acque proibite e il premier raggiunge la beauty farm preferita con un elicottero della Protezione civile? Dove tutto cambia perché niente cambi? No ci avevano promesso una politica più sobria?"

Fui ontem buscar à livraria italiana (um espaço muito simpático na rua do Salitre) um exemplar desse interessante livro escrito por dois conceituados jornalistas italianos. É um livro sobre a classe política italiana. Ou melhor, é um livro sobre o estado vergonhoso a que chegou a classe política italiana. O livro teve um tremendo êxito em itália. Começou por ter uma tiragem de trinta e cinco mil exemplares e acabou por vender, entre Maio de 2007 e Outubro de 2008, um milhão e duzentos e cinquenta mil exemplares. Foi reimpresso trinta e uma vezes. Como não podia deixar de ser, a classe nojentinha que o livro criticava optou por o usar para os seus fins. Berlusconi, na altura na oposição, disse que tinha La Casta na mesa de cabeceira (debaixo da obra completa de Mário Puzo presume-se). Mas mesmo essas manhas, tão comuns, foram insuficientes. O livro tornou-se um tremendo sucesso e mostrou aos italianos como uma classe inteira usa o bem público para proveito próprio.

Tomei conhecimento deste livro através deste excelente artigo de Perry Anderson na London Review of Books. Gostava imenso de ver alguém do calibre intelectual do Perry Anderson a escrever um texto sobre Portugal e acho que não se perdia nada se este livro fosse traduzido para português.

quinta-feira, março 19, 2009

terça-feira, março 17, 2009

pop up

Continuo a não perceber bem porque é que em cada programa em que se debate o casamento entre pessoas do mesmo sexo está sempre presente um membro da igreja (que eu saiba, sempre católica). Toda a gente sabe que o que está em discussão é o acesso ao casamento civil e não o acesso ao matrimónio religioso, e que sobre o primeiro a opinião da igreja é irrelevante (além de conhecida e inalterável). Faz-me lembrar uma coisa que havia no VH1, e que eu via em casa da minha avó, que eram os pop-up videos. Os pop-up videos eram clips nos quais apareciam umas bolhinhas que davam informação sobre a canção. Com a diferença que a informação tinha a ver com a canção e ali não tem.

domingo, março 15, 2009

epitáfio

Era uma vez um cavalo que vivia num lindo carrossel.

sábado, março 14, 2009

Blue Train


Uma pessoa chega a certos momentos na sua vida em que a vida parece que não significa absolutamente mais nada do que aquilo que significou nos momentos anteriores. Ainda assim, gostava de partilhar convosco que, se tivesse que escolher, hoje, uma só canção para ouvir até ao fim da vida, essa seria o Blue Train do John Coltrane. Está lá tudo. De momento é esta a minha verdade. O álbum acaba de ser reeditado em Portugal se não me engano.

sexta-feira, março 13, 2009

muito gira esta canção gentis senhores

o Saadiq tem uma pele óptima



Acabei de ver uma criancinha de treze anos a discursar durante dois minutos na reunião de um qualquer movimento Conservador americano. Podem ver a aberração aqui. Eu, um teutão desdentado que ainda não aderiu à pasteurização dos produtos lácteos, sou sem dúvida muito estúpido, mas digam-me: serei só eu que acho paradoxal uma criança de treze anos ir falar de Principled Conservatism a uma reunião de um movimento Conservador? Um dos princípios do Conservadorismo não devia ser que a crianças de treze anos deviam estar a fazer o que quer que as crianças de treze anos fazem?

quinta-feira, março 12, 2009

teoria

"We need to examine our own background assumptions to reveal and explain our selections, priorities and prejudices because 'all forms of social analysis...raise important questions about the moral and the cultural constitution of the observer'. In the theory of international relations we are as concerned with how we approach the study of world politics as we are with the events, issues and actors in the global system. We need to understand how individuals think about their world by promoting a wider self-awareness of our own belief systems. As Linklater argues, 'all social analysts (should) reflect upon the cognitive interests and normative assumptions which underpin their research'. It should be remembered that the 'international' is refracted through the mind of the observer. Constitutive international theory is directly concerned with the importance of human reflection on the nature and character of world politics".

Scott Burchill et. al., Theories of International Relations, 2nd Edition (Palgrave MacMillan, 2001), p. 15.

Agora adapta-se o parágrafo à teoria económica e ler-se-ia:

"We need to examine our own background assumptions to reveal and explain our selections, priorities and prejudices because 'all forms of social analysis...raise important questions about the moral and the cultural constitution of the observer'. In economics we are as concerned with how we approach the study of the economy as we are with the events, issues and actors in the economic system. We need to understand how individuals think about their world by promoting a wider self-awareness of our own belief systems. As Linklater argues, 'all social analysts (should) reflect upon the cognitive interests and normative assumptions which underpin their research'. It should be remembered that the 'economic' is refracted through the mind of the observer. Constitutive economic theory is directly concerned with the importance of human reflection on the nature and character of the economy".

quarta-feira, março 11, 2009

isto tem muita piada

Saiu agora um livro escrito pelo neto de Evelyn Waugh sobre os Wittgensteins. Nada melhor que um gajo de uma familia problemática e genial a escrever sobre outra família problemática e genial. Excertos da recensão de Jim Holt no New York Times sobre o livro The House of Wittgenstein:

“A tense and peculiar family, the Oedipuses,” a wag once observed. Well, when it comes to dysfunction, the Wittgensteins of Vienna could give the Oedipuses a run for their money. The tyrannical family patriarch was Karl Wittgenstein (1847-1913), a steel, banking and arms magnate. He and his timorous wife, Leopoldine, brought nine children into the world. Of the five boys, three certainly or probably committed suicide and two were plagued by suicidal impulses throughout their lives. Of the three daughters who survived into adulthood, two got married; both husbands ended up insane and one died by his own hand. Even by the morbid standards of late Hapsburg Vienna these are impressive numbers."

"Yet the Wittgensteins, for all their Sturm und Drang, can be as funny as the Waughs. We are told, for example, that the first spoken word of one of the Wittgenstein boys was “Oedipus.”

"Ludwig’s subsequent career, familiar from numerous biographies and memoirs, is briskly told here. Renouncing his share of the family fortune (among the largest of war-ruined Europe, thanks to the Wittgensteins’ shrewd American investments), he pursued self-mortification as a schoolteacher in an impoverished Alpine village. But his pedagogical methods included slapping the children rather violently, and he got run out of town."

"Backed by the Wittgenstein family fortune, Paul set about commissioning piano concertos for the left hand from the leading composers of the day. His dealings with them proved comically tempestuous. He rejected Hindemith’s composition as unplayable and wrote to Prokofiev, “Thank you for your concerto, but I do not understand a single note and I shall not play it.”

"For all their quarreling, madness and self-destruction, the Wittgensteins were at least spared one sort of dysfunction: there is no trace of incestuous impulses among them. The same, alas, cannot be said of the author’s own family. Evelyn Waugh freely avowed feelings of more than paternal tenderness for his daughter Meg. When she announced her intention to wed a young man, her father sadly wrote to a friend, “She wants children, and that is a thing I can’t decently provide for her.” Even Oedipus would blush."

terça-feira, março 10, 2009

a minha praia são filetes de cavala

Em contra corrente ao que aí é dito (não é conta corrente suas cavalgaduras), Portugal é um país absolutamente magnânime no panorama mundial, não fosse este país um dos únicos a ter, nomeadamente (é um truque que eu aprendi com o Rogério Casanova este de escrever um advérbio de modo no fim de uma frase para a qual não temos solução). Não obstante, trata-se de um país repleto de falhas estruturais. Olhe-se, por exemplo, para as discussões sobre o estado do ensino em Portugal que, de há uns tempos a esta parte, redundam em análises profundas sobre o analfabetismo (preocupante) da directora da DREN, Margarida Moreira, ou sobre o impacte do Magalhães. É um país com piada: indigna-se na luta contra o espúrio de tal forma que esquece o essencial.

E o que é o essencial? Não sei. Não faço ideia. Sei, contudo, que o essencial tem de passar por o país estar equipado com uma rede de bibliotecas decentes e, quando digo país, não ligo a posse. Isto é, tanto se me dá se é público ou privado. Um dos grandes mistérios da minha existência é a dificuldade que um ser humano tem em frequentar uma biblioteca para o que quer que seja. Há frequentadores nobres de uma biblioteca. É o meu caso. Um frequentador nobre é aquele que tem tanto respeito ao local que acaba por passar o tempo todo entre estantes à procura nem sabe bem do quê. Começa em Adorno e acaba em Voegelin, passando por tudo, desde A.J.P. Taylor a Santo Agostinho, desde Hamsun a Tchékhov. É obviamente um rato de biblioteca falhado, mas feliz o pobre. Existe depois o frequentador burguês. Como todos sabemos, o frequentador burguês está refém do seu ímpeto utilitário: está numa biblioteca para maximizar o seu conhecimento. É um frequentador metódico que não corre prateleiras. Escolhe os livros que quer, leva-os para a sua mesa e consulta-os, recorrendo muitas vezes ao índice para encontrar os termos que lhe interessam (chamam método a isto em alguns lugares, mas é ideologia). Existe, por fim, o não utilizador que frequenta. Em Portugal, em virtude do atraso, o não utilizador vai à biblioteca na esperança de poder aceder à internet, o que, vezes a mais, é impossível porque é reservada para frequentadores nobres e burgueses que pagam alguma coisa. Esse é um dos problemas: ter que se pagar para aceder a uma biblioteca não é digno de nenhum país desenvolvido. Não falo em requisitar, falo em aceder.

Nos últimos dois meses, refém desta condição, fui obrigado a pagar cinquenta euros para ter acesso à biblioteca da Universidade Católica Portuguesa. Pode-se entrar gratuitamente na biblioteca da UCP, mas apenas cinco vezes. Na biblioteca da Gulbenkian a situação ainda é mais ridícula. A entrada é livre para quem vai consultar. E quem não vai consultar? Não pode, lamenta o Securitas que está à porta (um Securitas à porta de uma biblioteca, por amor de Deus).

Mais, as bibliotecas desta merda de país (já é uma merda, atentem, bastam três parágrafos para deixar de ser magnânime) não estão ligadas umas às outras. Em Inglaterra, caso não houvesse um livro na minha biblioteca, esta fazia um empréstimo inter-bibliotecário. Isto é, pedia a uma biblioteca que o tivesse. Se ninguém tivesse e se não fosse caro de mais, comprava-se. Não é este o procedimento normal? Como é que um país pode andar para a frente sem uma rede de bibliotecas decentes? E não venham dizer que é um assunto de política educativa, quando nem as Instituições privadas de ensino têm boas bibliotecas.

A biblioteca da UCP é bastante limitada. Arranjam-se coisas interessantes, mas falta imensa coisa. Aliás, falta tanta coisa que eu nem percebo como é que eles mantêm aberto um curso de Relações Internacionais. O principal textbook de Relações Internacionais chama-se Politics Among Nations. Vai na oitava edição se não estou em erro. A biblioteca da UCP tem um exemplar. O segundo livro mais importante é o Theory of International Relations do Kenneth Waltz. A biblioteca da UCP tem um exemplar, traduzido em Português (a tradução não é grande coisa). Wendt escreveu, em 1999, o livro mais importante dos últimos anos na disciplina. De novo, apenas um exemplar. E isto é o mais mainstream que existe. Não sei quantos alunos tem um ano de Relações Internacionais, mas mesmo para dez isto é insuficiente.

Só para clarificar as coisas e para verem a profundidade do problema: de The General Theory of Employment, Interest and Money de John Maynard Keynes (esse de quem tanto se fala agora) existe um exemplar em Inglês (língua original), três em Francês e um em Espanhol . Quantos alunos existem em Economia e Gestão na UCP de Lisboa? No meu ano de ingresso eram cem no mínimo. Keynes serve-nos agora dizem. E lê-lo, quem leu?

ps. Na biblioteca da Universidade de Exeter, quem nem é das melhores, existem quarenta e nove entradas para Keynes. De The General Theory of Employment, Interest and Money existem sete exemplares, sem contar com o que deve estar na obra completa.