sexta-feira, março 06, 2009

O Leitor

O Leitor é um livro interessante, não mais que isso. Lê-se bem e a bom ritmo. É um livro com uma prosa agradável e cuja história nos agarra. Não fica na minha bibliografia essencial mas pelo menos já posso ir ver o filme sabendo ao certo o que é que vai ser destruído ou construído. O Leitor tem, contudo, uma série de passagens interessantes. Uma delas é a seguinte:

"Não sei porque o fiz. Mas hoje reconheço, naquilo que então aconteceu, o esquema por meio do qual o pensamento e a acção se conjugaram ou divergiram durante toda a minha vida. Penso, chego a um resultado, fixo-o numa conclusão e apercebo-me de que a acção é algo independente, algo que pode seguir a conclusão, mas não necessariamente. Durante a minha vida, fiz muitas vezes coisas que não tinha decidido fazer, e não fiz outras que tinha firmemente decidido fazer. Algo que existe em mim, seja lá o que for, age; algo que me faz ir ter com uma mulher que já não quero voltar a ver, que faz ao superior um reparo que me pode custar o emprego, que continua a fumar embora eu tenha decidido deixar de fumar, e que deixa de fumar quando me resignei a ser um fumador para o resto dos meus dias. Não quero dizer que o pensamento e a decisão não tenham alguma influência na acção. Mas a acção não decorre só do que foi pensado e decidido antes. Surge de uma fonte própria, e é tão independente como o meu pensamento e as minhas decisões".

Esta passagem fez-me lembrar uma reportagem que saiu no P2 a semana passada sobre o português que misteriosamente desapareceu em Berlim. O que me marcou nessa reportagem, feita quando já passavam 40 dias do desaparecimento, foi a constatação da possibilidade de desconhecimento de alguém que, até há pouco tempo, os amigos tinham a certeza de conhecer. É que, quando confrontados com a hipótese de desaparecimento por iniciativa própria, se quase todos diziam que nada fazia esperar tal coisa porque X não era 'assim e assado', ao mesmo tempo deixavam no ar a hipótese de que, talvez, ele fosse mesmo assim e assado, precisamente porque, e isto é a minha conclusão, ninguém conhece verdadeiramente ninguém.

Ninguém nos conhece melhor que nós próprios e, ainda assim, mesmo nós próprios, muitas vezes, como Schlink condensa nesse parágrafo, não fazemos a mínima ideia do porque é que fazemos o que fazemos. Isto é uma reflexão que já tenho há algum tempo e vem daí a minha crescente irritação com 'porquês'. Irrito-me porque eu próprio, por vezes, não sei as razões de muita coisa do que faço ou sinto (e mesmo que saiba, como pôr isso em palavras?). E porque é que as deveria saber? Quem é que mo exige? Uma concepção datada, mas ainda vigente no senso comum, da continuidade entre pensamento e acção?

Foi por isso em parte que gostei tanto do verso (a poesia é provavelmente a essência na qual o nexo pensamento/acto está menos presente) "amar é um elo entre o azul e o amarelo". Podem-se perguntar o porquê ou o sentido de tal verso. Eu não sei qual é, mas, para mim, faz todo o sentido.

ps. Esta maneira de pensar tem consequências para uma ética de responsabilidade - como responsabilizar aquele que se diz irresponsável? Onde acaba o impulso e começa o acto? - mas eu ainda não dediquei muito tempo a pensar nisso. Aliás, nem a isso nem a tudo o resto.

adenda: O corpo de Afonso Tiago, o jovem português desaparecido em Berlim que refiro acima, foi encontrado hoje pela polícia alemã.

quinta-feira, março 05, 2009

B.

Ide gentis senhores, ide ao maravilhoso espaço de Ana Cristina Leonardo na internet. Leiam especialmente este texto de Laurinda Alves, candidata do Movimento Esperança Portugal (MEP) ao Parlamento Europeu. O pensamento político de Laurinda Alves não pára de me surpreender. Eu sei que sou um bocadinho radical e tenho uma grave tendência para esgotar as boas ideias pelo exagero da sua aplicação, no entanto, assim de cabeça, arranjava um bom milhão de pessoas para serem alvo de uma petição que as enviasse directamente para Bruxelas. Ou para o Burundi. Burkina-Faso. Bahamas. Buraco.

quarta-feira, março 04, 2009

as aventuras de Uli "o Salomão" Sequeira


É bonito ver que o contributo da família Aronofsky em The Wrestler passa pela participação de dois gajos que fazem de chatos. Ainda não vi o The Reader, mas tendo eu uma costela salomónica bastante forte (sou um dos tipos mais justos que andam por aí), e estando nós a entrar numa época post sexual (entrámos na post racial com o Obama), proponho que acabemos com a distinção entre actores e actrizes. Assim, e reparem neste salto lógico brutalmente falacioso com o qual vocês vão concordar, eu proponho que dêem o óscar de melhor actor ao Mickey Rourke e o de melhor actriz ao Sean Penn. Ou vice-versa. A Judith Butler deve estar tão orgulhosa de mim.

terça-feira, março 03, 2009

lady d'arbanville

O mundo é um lugar complicado, de difícil descrição, como repetia o ensimesmado Euclides enquanto sorvia o seu batido de Cookies N'Cream com Cherry Garcia na abertura de uma qualquer loja de gelados no Chiado. Recupero essa bonita memória ao encontrar no site do Busy P uma fotografia do José Castelo Branco com a sua esposa. O Busy P, como decerto saberão, é o manager dos Daft Punk e fundador da Ed Banger, a mais cool editora do momento. O mundo é um lugarejo engraçado. Ainda bem que o frequento cada vez menos.

a minha profissão devia ser tomar cocktails em NY


segunda-feira, março 02, 2009

Gonçalo M. Tavares

"A nova geração de romancistas portugueses, refiro-me aos que estão agora entre os 30 e os 40 anos de idade, tem em Gonçalo M. Tavares um dos seus expoentes mais qualificados e originais. Autor de uma obra surpreendentemente extensa, fruto, em grande parte, de um longo e minucioso trabalho fora das vistas do mundo, o autor de O Sr. Valéry, um pequeno livro que esteve durante muitos meses na minha mesa de cabeceira, irrompeu na cena literária portuguesa armado de uma imaginação totalmente incomum e rompendo todos os laços com os dados do imaginário corrente, além de ser dono de uma linguagem muito própria, em que a ousadia vai de braço dado com a vernaculidade, de tal maneira que não será exagero dizer, sem qualquer desprimor para os excelentes romancistas jovens de cujo talento disfrutamos actualmente, que na produção novelesca nacional há um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares. Creio que é o melhor elogio que posso fazer-lhe. Vaticinei-lhe o prémio Nobel para daqui a trinta anos, ou mesmo antes, e penso que vou acertar. Só lamento não poder dar-lhe um abraço de felicitações quando isso suceder".

José Saramago
no seu Caderno.

domingo, março 01, 2009

sábado, fevereiro 28, 2009

Ulrich 'Uli' Sequeira

Apresento-vos Uli Sequeira que depois de Canetas e do anormal do Filipe Canas, se torna o fiel guardião desta banheira de guaxinis virtual. Uli é um amante da Bundesliga, militante do partido da Terra checo e reservista do exército suíço. Escreveu durante anos no Morgebladett sob o nome artístico de Hansel Maurice. Tem 30 anos. Lê bastante e gosta de beber amaretto antes de ir para o berço.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A comprovar que pedir continua a ser a melhor solução para obter o que se pretende (uma economia socialista é de novo possível), leia-se com atenção a seguinte frase feita a meu pedido e para mim (isto pertence a quem?):

"Não estou a falar de darmos um toque electrónico aqui e ali nas músicas, como fizemos com o 'Flux'. Não. O que ficava mesmo brutal era bombarmos mesmo á séria com os sintetizadores, ao ponto de não se ouvir nada do que fizemos até agora. No fundo, era fazer deste álbum uma espécie de discussão acalorada entre dois golfinhos".

Eu retribuo a gentileza com uma informação profundamente central para um entendimento neo-cartesiano das dinâmicas globais existentes antes da revolução racionalista, tempos em que a prostitutas da corte de França liam os ensaios do Montaigne sobre o prazer a interação sexual entre seres humanos: a personagem do agente do Entourage (que é uma série de merda da qual apenas se safa esse gajo que faz de agente) é baseada em Ariel Rahm que é, nada mais nada menos, irmão do Chefe de Gabinete de Obama, Emanuel Rahm, sobre quem a New Yorker publicou um artigo relativamente interessante.

Há claro todo um problema com estes artigos da New Yorker sobre malta influente que me preocupam na medida que não entendo como eles o fazem, isto é, a única opção possível que me ocorre - excluindo a hipótese dos gajos inventarem esta merda toda para que gente como eu não se dedique àquilo que tem realmente de fazer - é muito complicada em termos logísticos e passaria por ter uma ideia relativa sobre quem vai ser influente e ter alguém sempre no encalço dessa pessoa, mas não me apetece nada escrever sobre isso (e esse artigo sobre o Rahm não é o melhor para ilustrar o que eu quero dizer).